Uma Visita pelo Mundo: A Poesia de Virna Teixeira.

                 Quando pensamos na relação da #escrita com o tempo, compreendemos que quem escreve, reflete pode tanto dialogar com o agora, com o antes, o depois ou algo no meio de tudo isso. O tempo é acariciado pelas escolhas estéticas, questões existenciais e vivências afetivas. No entanto, ainda aqui no século XXI aquela antiga tendência de revirar a biografia de artistas, tenta fugir da análise estética. Pra quê tanto vicio na pseudopsicanálose? Será que, embora a arte não “sirva para nada”, Poetas podem estar só à serviço da Poesia? Podemos pensar só a linguagem? A linguagem se desprende da vida ou a anuncia? A vida humana está ligada em quê e além de quê? E o que seria estar à serviço da arte? Podemos fazer uma lista imensa para investigar. Melhor se propor à isso do que se alimentar com velho fast-food da crítica.

No olhar andarilho de Virna Teixeira, desprender-se de si, talvez não signifique despersonalizar-se, mas abrir-se aos saberes do outro. Contando com a inteligência do leitor, a Poesia de Virna não entrega respostas, ao contrário, é misteriosa e insinua diversas impressões sobre o mundo. Ao passar por determinados lugares, não são os julgamentos morais que evidenciam a sua leitura, mas o tríplice encontro da linguagem, mundo e imaginação. Em alguns momentos, nos faz pensar até que há uma herança cabralina na escrita dessa poeta… Todavia, mais do que atribuir afinidade aos versos de João Cabral de Melo Neto ou Ana Cristina Cesar, parecer ser de importância muito mais elevada, focar em questões que a Poesia nos inspira.

O ser é o que é ou o que está sendo? A partir dessa questão, toda a filosofia ocidental se reinventa há séculos. E, entre o que se é e o que está sendo, quais lugares verdadeiramente ocupamos dentro do tempo? A Poeta Virna Teixeira, em seu livro Visita (7 Letras, 2000), nos lembra que o mundo também é uma invenção da linguagem. E, ao eleger títulos como “Penélope” “Passado” e “fin de siécle” para os seus poemas, ela nos convida à refletir que muito mais do que querer ser poeta na contemporaneidade, quem escreve tem um compromisso irrevogável com outros tempos.

           Mas afinal, o que fazem artistas? Para se dizer quem é artista, há sempre uma tendência de tentar encaixar estilos em escolas estilísticas. Isso, nos tempos positivistas e na busca pela autoafirmação dos heróis parnasianos, conquistou algumas pérolas poéticas e fez com que a narrativa linear criasse rivalidades engraçadas entre os diversos movimentos que se faziam… Até chegar o modernismo e se opor à tudo, claro. Agora, depois de todas as vanguardas, parece ser muito mais viável dar vazão à uma vertente cada vez mais autoral. Afinal, o estilo é uma questão de escolha. Mas agora, enquanto alguns reinventam a roda, outros se afogam feito narcisos e alguns até conseguem ver o valor da multiplicidade. Ou ao menos tentam.

      Quando perguntamos nesse texto, “o que é o ser?”, confabulamos com a investigação que está presente na História produzida pela humanidade, que não tolera simplismos e também está presente na fragmentação dos versos de Virna. Não obstante, vários poetas escolhem esse estilo de poesia. Alguns dizem que isso também referencia a “fragmentação do sujeito”… Mas, será que isso também não demonstra que entre a velocidade das informações e o que se pode absorver de conhecimento, há sempre um silêncio necessário? Afinal, o sujeito é múltiplo ou só está fragmentado? Podemos escolher diversas respostas, ou simplesmente, podemos degustar o silêncio e apreciar a polissemia das palavras.

       Entre viagens, estados e países, conseguimos nos transformar no instante de um clique? E se somos guiados pelo Devir, o que nos constitui enquanto sujeitos que fazem determinadas escolhas? O silêncio dentro um poema é muito mais provocativo do que a exaltação de respostas prontas. Jonh Cage nos mostrou isso com a sua música. E com a Poesia de Virna, notamos que, dentro dessa grande vida-viagem, nos deparamos com quartos, dias, cidades e estações, nomeamos seres e pessoas, mas, estamos todos de passagem. E, se estamos todos de passagem, porque não fazemos agora, uma nova leitura do mundo?

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Eunice Boreal

13 de dezembro de 2015.

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